Senhor do Mares

Muitos garotos que vivem perto do mar decidem que um dia se tornarão surfistas. Não demorará muito tempo para que eles consigam ficar de pé em suas pequenas pranchas. O tempo não será cruel. Em sua imaginação eles se tornarão grandes surfistas capazes de enfrentar as grandes ondas. Não são poucos os garotos que se apaixonam pelas ondas e sonham com o dia em que passarão muito tempo dentro dos tubos que se formam nas ondas. As longas horas de espera pela onda perfeita nunca serão tempo perdido, porque flutuar e observar a natureza conquistaram o imaginário daquelas crianças que sonhavam em dropar uma onda inacreditável.

Os primeiros surfistas de sonho, imaginavam que, uma vez que conhecessem o mar próximo de suas casas, já teriam conhecido os mares e todas as suas sutilezas. Um dia aprenderam a ficar de pé em suas pranchas e a contar a quantidade de ondas que cada série possui. E passaram a pensar consigo mesmos que já conheciam o mar. A sua cor azul atraiu os garotos e garotas apresentando uma pequena parte da realidade da força de suas ondas, a parte mais próxima da terra seca. Quando meninos se sentem homens, eles começam a sonhar com confrontos maiores e mais sérios. Eles resolvem conhecer as grandes ondas que os oceanos são capazes de formar. Estas ondas já não são simplesmente azuis, elas possuem um azul profundo que guarda segredos que meninos não foram capazes de desvendar. Aquelas grandes ondas substituirão as risadas largas por olhares profundos e pelo silêncio de quem aprendeu a respeitar o desconhecido. Entretanto, o espírito aventureiro descobrirá, a duras penas, um dos momentos mais difíceis que o mar oferece àqueles que desejam deslizar por suas ondas. Num determinado momento, sem que se possa evitar, algo dá errado e os surfistas caem das ondas direto para dentro do estômago do mar. Lá, eles penetram em águas mais profundas, movidos pela força das ondas que retorcem os corpos dos pobres surfistas. O impacto do inesperado, a força das ondas, tudo é muito novo. Depois de alguns segundos o que eles desejam é voltar à superfície para respirar. Entretanto, quando eles retornam à tona, eles se deparam com uma espécie de pesadelo que não tem hora para terminar. Outra grande onda projeta-se contra o destemido surfista e o leva para lugares onde ele não gostaria de estar. Agora, com menos fôlego e amedrontado pela proximidade com as pedras do fundo do mar, o aventureiro só deseja voltar para casa são e salvo. O ar de que ele tanto precisa virá seguido de outras grandes ondas. O que fazer quando estamos em uma armadilha mortal? Segundos viram horas, minutos se tornam uma vida inteira. O que aquele amante do mar teria deixado para trás? Haveria algum amigo tão chegado que fosse capaz de arriscar-se através dos redemoinhos de ondas para salvá-lo? Quanto tempo um pesadelo desta proporção poderia durar? Infelizmente, o sofrimento é mais forte do que o ânimo humano. Ele é capaz de vergar até o mais forte espírito mortal. Diante das vagas, os homens se tornam bebês frágeis e próximos de sua origem, quando não sabem o significado da vida. Este é o momento das orações. As preces que moverão as grandes águas desconhecidas da vida. Elas são mais certeiras do que a capacidade humana de sobrepujar as grandes ondas do desespero. As súplicas apelam para o Senhor dos mares. Elas se dirigem Àquele que pode socorrer aos que foram dominados pela espuma do sofrimento. Sem que os súplices percebam, uma mão invisível irá socorrê-los trazendo-os em direção ao Seu peito. Diante de Sua força as ondas cessam. Cessa o presente e o futuro incertos e tudo se faz bonança, porque Ele socorre ao aflito que por Ele clama por socorro em meio às ondas da vida.

“E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até
o vento e o mar lhe obedecem?” Marcos 5.41

Eli Moreira

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