Renasça

Não percebi o que se passava comigo rapidamente. Não distingui o tempo e suas consequências numa noite. Como todas as pessoas, observei os raios de sol a cada manhã. Ouvi o canto dos pássaros, observei cada um dos seus gestos cheios de alegria. Senti o cheiro dos frutos que estavam ao meu redor. estes fatos me encheram do sentimento de eternidade, que manifestam as características do Criador: beleza, sabedoria e vida sem fim. Mas o fato é que minhas raízes ficaram velhas. Elas foram se tornando caducas, sem que eu tivesse tomado ciência de que o tempo havia passado.

Parece que dormi e, de repente, acordei e a velhice havia tomado conta de tudo que eu era, de tudo que eu sou. Minhas raízes, que durante muito tempo estiveram sobre a terra, à mostra para quem passasse ao meu redor, agora se encontram enrugadas e secas. Perderam sua capacidade de se aprofundar naquilo que é novo. Estão retidas no passado, no que se foi. Parece que foi ontem que minha semente foi plantada. Como o tempo e a vida são enganosos! Eles nos dão a impressão de que tudo ficará imutável e obediente aos nossos melhores momentos. As raízes representam o vínculo com quem somos e com quem seremos. Elas nos ligam à água e nos falam sobre nossa origem, que não pode ser esquecida. Durante toda a nossa existência, elas são a sustentação do que nos tornaremos. Elas estarão ligadas aos nutrientes que possibilitarão nosso crescimento. Por causa delas, seremos capazes de enfrentar as tempestades e os vendavais. Enquanto minhas raízes foram envelhecendo, quantas coisas eu vi se passarem ao meu redor. Quanta vida, quanta gente, quantos sorrisos, quantas lágrimas, quanto socorro, quantas chuvas. Quantos amigos que se foram, com a força do vento, quanta esperança guardada com toda força em meu interior, quanta água da vida me alcançou através destas velhas raízes. Vendo minhas raízes enrugadas, sem força, com problemas de memória, meu tronco começou a chorar seiva sem parar. Não sei como estancar o choro que corre como rios de dentro de mim. Meu sentimento é o sentimento de morte, o sentimento da cessação de toda a vida. Estou impotente diante da queda dos galhos, da ausência de novos brotos e de novos frutos. Sinto que estou ligado às vitórias do passado, às histórias que já se foram. Tornei-me incapaz de criar e viver novos momentos. Meu tronco está morrendo. Os meses seguintes não foram gentis comigo. Lentamente o que parecia estar morrendo, morreu. Galhos, folhas e o próprio tronco foram secando até que, um dia, serraram meu tronco e cortaram até minhas raízes secas, que ficaram aparentes durante décadas sobre a terra. Eu chorava seiva que parecia que nunca ia acabar, mas depois de alguns dias, tudo acabou. Só restou um toco de vida. Nós geralmente pensamos que a vida está em nós. Pensamos que faremos com ela o que desejarmos. Mas a vida vem de Deus. Ela não é uma propriedade nossa, ela é uma dádiva divina que se expressa todos os dias, por causa de Sua generosidade. Generosidade que pode ser vista através da morte de Jesus em lugar de pecadores. Morte que parecia ser o Seu fim, até que Ele ressuscitou e trouxe vida para todos os que nele creem. A velha árvore ficou sozinha no mundo por vários meses. Quem a cortou não levou a cabo seus planos. Num dia, surgiu da velha árvore um rebento, uma nova árvore que cresceu com a força da velha, em direção às grandes alturas porque criou raízes profundas e, então, voltou-se para o sol, e deu frutos e viu a alegria se multiplicar ao seu redor. Pois, afinal, ressurreição é renascer.

“Em verdade, em verdade vos digo:se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” João 12.24

Eli Moreira

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